20/06/2020 às 13h53min - Atualizada em 20/06/2020 às 13h53min

Famílias de Queiroz e miliciano mantiveram contato durante investigações, diz MP

De acordo com a Promotoria, ex-assessor de Flávio Bolsonaro recebeu cerca de R$ 400 mil em repasses feitos por ex-capitão Adriano da Nóbrega

Guilherme Venaglia, da CNN em São Paulo
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Fabrício Queiroz durante a prisão na manhã de quinta-feira (18) em casa em Atibaia

As investigações do Ministério Público do Rio (MP-RJ) sobre a suposta "rachadinha" no gabinete de Flávio Bolsonaro na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) apontaram que a relação entre Fabrício Queiroz, ex-assessor do político, e Adriano Magalhães da Nóbrega, ex-policial denunciado em 2019 como um dos líderes do grupo miliciano conhecido como "Escritório do Crime", teria continuado mesmo após o início da apuração do esquema.

Adriano foi morto em fevereiro deste ano pela polícia da Bahia, no município de Esplanada, durante uma operação policial. Ele e Queiroz trabalharam juntos como policiais em um batalhão na Zona Oeste do Rio. Os dois responderam juntos por um homicídio, registrado como "auto de resistência".

Fabrício Queiroz foi preso nesta quinta-feira (18), acusado de ser o operador financeiro da "rachadinha" no gabinete de Flávio Bolsonaro na Alerj e de atrapalhar as investigações do caso. O ex-assessor foi detido em um imóvel em nome de Frederick Wassef, advogado do senador e filho mais velho do presidente Jair Bolsonaro, em Atibaia (SP).

Segundo a decisão que determinou a prisão de Queiroz, dada pelo juiz Flávio Itabaiana de Oliveira Nicolau, o MP-RJ estima que o ex-assessor de Flávio Bolsonaro teria recebido R$ 400 mil em repasses feitos por Adriano da Nóbrega e sua família. A mãe do miliciano, Raimunda Veras Magalhães e a mulher dele, Danielle Mendonça da Silva, foram lotadas no gabinete da Alerj.

De acordo com trechos da investigação citados pelo magistrado, Raimunda intermediou contatos entre Queiroz e Adriano após o caso vir a tona. Orientada por Queiroz, a mãe do ex-policial se mudou do Rio de Janeiro para a cidade de Astolfo Dutra (MG), onde deveria permanecer recolhida, sobretudo depois de o Supremo Tribunal Federal (STF) autorizar a retomada das apurações da "rachadinha", no final de 2019.

Raimunda Veras Magalhães esteve lotada no gabinete de Flávio Bolsonaro, mas, segundo informações de seu telefone celular, nao esteve próxima da Alerj durante todo o período de nomeação. Ela era administradora de uma pizzaria.

Este restaurante e um outro, administrado por Adriano, transferiram juntos cerca de R$ 70 mil para a conta de Queiroz. Além disso, em um período de um ano, outros R$ 91 mil foram depositados na conta do ex-assessor, em dinheiro vivo, em uma agência bancária localizada na rua dos restaurantes administrados pela mulher e o filho.

Os diálogos travados durante a investigação envolviam ainda a própria Danielle; a esposa de Queiroz, Márcia Oliveira de Aguiar; o advogado Luis Gustavo Botto Maia, que já trabalhou para Flávio Bolsonaro; e um interlocutor identificado como "Anjo". A suspeita da relação de Fabrício Queiroz com milícias do Rio de Janeiro foi apontada pelo juiz Flávio Nicolau como uma das razões que justificariam a sua prisão.

Além da relação com Adriano, essa conexão é feita por uma mensagem de áudio enviada à mulher de Queiroz em dezembro de 2019, em que é feito um pedido para que o ex-assessor interceda para a proteção de uma pessoa em conflito com milicianos na zona oeste do Rio.

Procurados pela CNN, o advogado Paulo Emílio Catta Preta, que já defendeu Nóbrega e hoje representa Queiroz, e o senador Flávio Bolsonaro não se manifestaram sobre a relação entre os dois e os valores citados pelo MP-RJ. Nesta sexta-feira (19), Catta Preta apresentou um pedido de habeas corpus para que Queiroz deixe a cadeia. Na véspera, Catta Preta afirmou que as alegações que basearam a prisão de seu cliente são "ilações". 

Queiroz e Flávio Bolsonaro

A relação de Queiroz com Flávio Bolsonaro também é detalhada na decisão do juiz e em documento interno do Ministério Público do Rio de Janeiro. Queiroz seria o responsável por coletar e dar destino a parte dos salários de servidores nomeados -- alguns funcionários regulares, outros que seriam "fantasmas". De acordo com a apuração, o ex-deputado estadual e hoje senador seria o beneficiário final de ao menos parte dos recursos arrecadados por meio da "rachadinha".

Para basear a informação, os promotores anexaram uma foto de Fabrício Queiroz em uma agência bancária em outubro de 2018, quando ele estaria com cerca de R$ 7 mil em dinheiro. Neste dia, Queiroz utilizou o dinheiro, segundo o MP, para pagar dois boletos, que seriam as mensalidades escolares das duas filhas de Flávio Bolsonaro.

O MP também aponta que Flávio e a esposa pagaram cerca de R$ 260 mil de suas despesas pessoais com dinheiro em espécie, de origem desconhecida. A assessoria dele se manifestou por meio de nota e negou as irregularidades. "Trata-se de mais uma ilação de alguns promotores de injustiça do Rio. O patrimônio do Senador é totalmente compatível com seus rendimentos e isso ficará inequivocamente comprovado dentro dos autos", diz o texto.

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